AGRONEGÓCIO

A autofagia eleitoral e o Brasil que não cabe na propaganda

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil O horário eleitoral começou. Mudam as músicas, os cenários, as cores e os candidatos. O roteiro,…

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O horário eleitoral começou. Mudam as músicas, os cenários, as cores e os candidatos. O roteiro, entretanto, parece o mesmo.

De um lado, promessas cuidadosamente produzidas. Do outro, ataques pessoais, acusações e tentativas de destruir a reputação do adversário. No meio dessa disputa está o eleitor, procurando alguma resposta para os problemas concretos de sua vida.

A crítica não está na existência do confronto. A democracia pressupõe divergência, fiscalização e oposição. O problema começa quando a disputa eleitoral deixa de ser uma comparação de projetos e se transforma em um campeonato de ofensas.

Nesse momento, a política deixa de discutir o país e passa a alimentar a si própria.

O Brasil que ficou fora da propaganda

Enquanto os programas eleitorais apresentam um país quase cenográfico, existe outro Brasil lutando para sobreviver.

É o Brasil das empresas endividadas, das famílias que perderam capacidade de consumo, dos empreendedores sufocados pelo crédito caro e dos produtores rurais que trabalham com margens cada vez menores.

Somente até abril, 268 processos de recuperação judicial, envolvendo 602 CNPJs, foram registrados em 2026. Cada processo possui causas particulares, mas o conjunto funciona como um sinal de alerta.

A recuperação judicial é quase sempre o último recurso de quem ainda tenta continuar produzindo, empregando e pagando suas dívidas.

Mesmo depois das reduções recentes, a taxa Selic permanece em 14% ao ano. Nesse ambiente, o crédito deixa de ser instrumento de crescimento e passa a ser fator de sobrevivência.

O capital de giro encarece. O investimento é adiado. O consumo perde força. Empresas que contraíram dívidas quando os juros eram menores descobrem que a rentabilidade operacional já não é suficiente para suportar o custo financeiro.

Esse é o país real que deveria estar no centro do debate eleitoral.

A política que se alimenta da própria crise

O Brasil vive uma espécie de autofagia política.

A energia que deveria ser utilizada na construção de soluções é consumida na tentativa de destruir adversários. Governo e oposição passam mais tempo procurando culpados do que apresentando caminhos.

Não se trata de acusar este ou aquele candidato. Trata-se de reconhecer um comportamento que atravessa partidos, governos e eleições.

A polarização permanente oferece combustível para a manutenção do poder. Ela divide a sociedade, mobiliza militâncias e transforma qualquer crítica em uma declaração de guerra.

Enquanto todos brigam, os problemas permanecem.

A dívida pública continua crescendo. A produtividade avança lentamente. A infraestrutura permanece insuficiente. O sistema tributário continua complexo. A insegurança jurídica afasta investimentos. A educação não prepara milhões de jovens para uma economia cada vez mais tecnológica.

Nenhum desses problemas cabe em um ataque de 30 segundos.

Combater a pobreza ou administrar a dependência?

Os programas de transferência de renda são indispensáveis para milhões de brasileiros. Seria irresponsável negar sua importância, principalmente em períodos de desemprego, inflação ou perda de renda.

O problema aparece quando a proteção emergencial não vem acompanhada de uma verdadeira porta de saída.

Os dados mostram que a pobreza recuou, o que precisa ser reconhecido. Ainda assim, 23,1% da população brasileira permanecia abaixo da linha de pobreza em 2024. É quase um em cada quatro brasileiros.

Um projeto de país não pode se limitar a administrar essa realidade.

A política social precisa estar ligada à educação de qualidade, à capacitação profissional, ao emprego, ao empreendedorismo, à moradia, ao saneamento e ao crescimento econômico.

Quando o cidadão depende permanentemente do Estado para sobreviver, sua liberdade de escolha fica reduzida. Quando conquista renda própria, qualificação e oportunidade, torna-se efetivamente independente.

O objetivo de uma política pública não deveria ser produzir eleitores agradecidos, mas cidadãos livres.

O campo não precisa de carinho eleitoral

O agronegócio conhece bem essa distância entre propaganda e realidade.

Durante as campanhas, o setor costuma ser lembrado como símbolo de prosperidade. Fora delas, enfrenta crédito caro, seguro rural insuficiente, infraestrutura precária, insegurança jurídica e custos crescentes.

O campo não precisa de elogios sazonais. Precisa de previsibilidade.

Precisa saber como o próximo governo pretende enfrentar o endividamento rural, ampliar o seguro, melhorar a logística, garantir segurança jurídica e criar condições para que o produtor continue competitivo.

O Brasil não pode tratar sua principal força exportadora apenas como cenário para imagens de campanha.

As perguntas que deveriam ocupar a televisão

O diagnóstico os candidatos já têm. Todos conhecem os principais problemas do Brasil e sabem apontar o que não funciona.

A dificuldade começa quando precisam explicar como pretendem resolver. Nesse momento, fogem do “como fazer” como o diabo foge da cruz.

Diagnosticar é fácil. Governar exige muito mais. Exige coragem para enfrentar interesses, competência para escolher os caminhos e liderança para conduzir o país nas decisões difíceis.

Como o país pretende equilibrar as contas públicas sem aumentar ainda mais a carga sobre quem produz?

Como reduzir os juros de maneira sustentável?

Como elevar a produtividade brasileira?

Como transformar riqueza agrícola, mineral, industrial e ambiental em desenvolvimento?

Como oferecer ao cidadão condições para caminhar com as próprias pernas?

Essas são as perguntas que deveriam dominar o horário eleitoral. Mas elas exigem estudo, responsabilidade e coragem para apresentar escolhas difíceis.

É mais fácil criar um inimigo.

A eleição precisa ser maior do que os candidatos

O Brasil não precisa de salvadores da pátria nem da fabricação permanente de inimigos. Precisa de um projeto nacional que sobreviva às eleições e às mudanças de governo.

Um projeto que reconheça a dimensão deste país, liberte sua capacidade produtiva e transforme crescimento em oportunidade.

O horário eleitoral começou, mas o debate sobre o futuro ainda não entrou verdadeiramente em cena.

Se a campanha continuar limitada ao teatro das ofensas, teremos mais uma eleição movimentada e, depois dela, um país parado diante dos mesmos problemas.

A eleição escolhe quem governará o Brasil. Mas somente um projeto de Estado poderá decidir para onde o Brasil vai.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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Fonte: Canal Rural

Perguntas frequentes

Respostas institucionais sobre esta cobertura, fontes e limites editoriais.

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Júlia Ferreira

Júlia Ferreira

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